Contos e Causos

Autor: Nédio Vani

CHURRASCO DO FANHO

Tem um chirú aqui de Chapecó, o tal de Batistuta, fanho que vende loteria, rifa, raspadinha, poster do Inter, do Grêmio e outras coisas mais. Seguidamente ele faz destas; Certo domingo o fanho foi à uma festa no interior. Foi vender seus produtos lotéricos. Aí pelas 11h30min chegou perto da churrasqueira, com aquela mundera de espetos e falou para um dos churrasqueiros: - Tchê me vê o nº 57. O churrasqueiro achou e espeto, ele deu um corte de meio palmo, mordeu, comeu e disse: - Dá mais uma passadinha que não ta bom. Depois de uns quinze minutos voltou, pediu novamente o espeto nº 57, deu mais dois corte no outro lado e disse: - Não ta bom. Põe no fogo e dê uma aceleradinha. Quando chegou o dono do espeto nº 57 com a ficha na mão, houve um princípio de tumulto, pois seu churrasco tava todo cortado. O churrasqueiro disse: - O Sr. que é o dono ?. Não vem com essa. O dono é um fanho, aquele que ta pegando carona no portão e ta indo embora.

GOLEIRO DO COBRA PRETA

Existe até hoje, desde o ano de 1966, uma equipe de futebol na minha terra em Getulio Vargas (RS), chamada Esporte Clube Cobra Preta (ECCP). Inicialmente começou com um time de futebol de campo, pois na época não existia pelo menos, nem quadra de futebol de salão na cidade. A equipe começou tomar corpo e ficou famosa por disputar e vencer torneios na cidade, no interior e destacar seu nome na região. Sempre apareciam atletas querendo jogar ou fazer teste na equipe de futebol de campo. Tinha o tal do nego Ortidore, morador nos altos da cidade na “Zona da Costaneira conhecida como Zona do Chinaredo, que ficava insistindo e enchendo o saco do nosso treinador o Atalibio, para fazer teste no time como goleiro”. Como nós não treinávamos, pois a maioria trabalhava durante o dia e estudava a noite, Ataliba resolveu levar o Ortidore num jogo amistoso que fizemos no distrito de Linha Formiga, interior de Getúlio Vargas num domingo. Fomos em 16 numa Kombi, pois ninguém tinha carro e o Ortidore junto. Para testar o Ortidore como se saia no gol, o Atalibio colocou logo no início do jogo. Aí pelos 10 minutos, saiu um atacante do time adversário sozinho em direção ao nosso gol; ele e o nosso goleiro. O treinador gritou para o Ortidore: - Saia, Saia, Saia. (pra sair do gol e tirar a bola do adversário) O Ortidore saiu do gol, deixou o atacante entrar com bola e tudo, chegou no banco de reservas e disse pro treinador: - Olha aqui seu; se for pra eu jogar só 10 minutos eu não venho mais treiná.

FUMAÇA NO PALCO

Fui gravar o programa “O Sul Sem Fronteira” (TV Record) SC em São Luiz Gonzaga (RS), no 3º Encontro de Chamameceros. Gravei com o Yamandu Costa, Jorge Guedes, Borghetti, Oscar dos Reis e outros. No domingo, esperando gravar novos artistas, o Chico Mordomia me apresentou Doné Teixeira, autor de várias letras entre elas “Era, Tum, Tum, Tum” e “Tando Mais ou Menos Ta Louco de Bom” que Os Monarcas e Xirú Missioneiro gravaram. Mas gravando com o Doné, me disse que nos anos 60, ele tinha um conjunto com seus irmãos, Os Irmãos Teixeira e tocavam bailes na base do lampião. Quando chegou a luz, usavam uma ou duas caixas de som e tocavam a noite inteira. Me disse que não tinha essa modernidade de hoje. Perguntei: - Mas qual era a diferença? Ele respondeu; - Essa tal de fumaça (gelo seco) que tem hoje nos palcos, nóis só tinha quando pegava fogo nos apareio.

PINGA 101

Temos um grupo de veteranos que nos reunimos semanalmente para jogar um futebol sete, chamado “Os coroas bom de bola”. Para jogar os atletas tem que apresentar a camiseta que irão usar com a numeração XXGG ou se pesarem na balança (aquela de banheiro) que fica próximo ao campo. Meu amigo Wolnei, gaúcho por de más de Santo Antonio da Patrulha, tem uma distribuidora de bebidas, representando diversas marcas do sul. Entre muitas, vende uma cachaça com o nome de “101”. Perguntado se era boa a pinga ele respondeu: - A BR 101 mata, a minha só tonteia.

GERENTE E SUB-GERENTE

No ano de 1970 e pouco, um chirú aqui de Chapecó proprietário de uma funilaria, tinha o tal de papagaio, empréstimo no Banco vencido. Recebeu um telefonema do banco e a pessoa falou: - Escuta, aqui é o Sub-Gerente do Bancol; eu queria saber se o sr. vai pagar o papagaio ou não, senão vou colocar no cartório. E o chirú, falido, pior que a merda do cavalo do bandido, sem ter condições para pagar respondeu: - É o Sub-Gerente do Banco ?; grande merda, aqui é o Gerente da Funilaria Progresso.

LUZ DO CARRO

Como não podia deixar de ser, todo cliente que vinha pagar a luz no meu caixa do Banco do Brasil, sempre pagava acima do mês anterior, e já vinham berrando de cara. De certa feita chegou um vivente no meu caixa para pagar a dita luz que nunca ninguém sabe como é calculada. Um mês dava um valor, no próximo dava outro. Apresentei a fatura ao vivente e dei o valor: - São cinqüenta e cinco contos. Aí veio a reclamação: - Mas como? Eu no mês passado paguei doze e cinqüenta e meu vizinho que tem um galinheiro, um motor d’água e dois galpões, ele paga bem menos do que eu. - Pois é, falei, não somos nós que calculamos o valor. Nós só temos o trabalho de lhe cobrar. O Sr. tem que reclamar lá no escritório da Luz. - Mas tu acha que pode dar tanto lá na minha casa? E eles nunca vêm tirar a numeração do contador, são uns sem vergonha, ladrões. Eu, com de saco cheio, recebi o dinheiro, ele ainda reclamando, quitei a conta da dita luz. Quando entreguei o papel disse: - O Sr. fica tranqüilo, que só a luz do meu carro mês passado, paguei cento e trinta reais. Ele saiu ainda reclamando, parou perto da porta, se virou e berrou: - A LUZ DO CARRO?

O LP DO CREMILDO

O Cremildo dos Pampas, índio velho muito humilde, morava num bairro na minha cidade natal de Getúlio Vargas (RS), terra da Cervejaria Serramalte. O Cremildo trabalhava de peão num Curtume no setor de recepção; mas de recepção de couro cru, salgado para a curtição. Minha cidade natal é pequena, não tem muitos artistas. Muitos Getulienses saíram cedo e foram aventurar por esse mundo afora. Muitos são famosos e com grandes cargos no Brasil. Quando fui estudar em Passo Fundo, parando num porão com estudantes, me perguntaram: - Tu és da onde tchê? - Sou de Getúlio Vargas. - Mas lá nasce gente lá. Pensava que só tinha Cerveja Serramalte. O tal do Cremildo, morando no bairro da “costaneira” perto da zona do meretrício, resolveu gravar um LP. Na época com músicas meio sertaneja, meio gaúcha, meio popular. O pedido veio do chinaredo da “Zona”, porque ele tocava seguido naquele recinto. Arrumou uns trocos e gravou o bolachão. A minha indiada de Getúlio Vargas nem de graça queriam o tal de LP do Cremildo dos Pampas, nome artístico. Certo dia como não vendia os LPs na cidade, o Cremildo resolveu ir até a cidade Erechim, uns 30 km distante de Getúlio, juntamente com os seus dois filhos crioulos, um de treze e o outro de quinze anos, para ver se vendia alguns discos. Depois de um dia na cidade vizinha, voltou para a Getúlio Vargas, parou num boteco, se encontrou com minha turma do futebol. Falou que tinha ido vender discos na cidade de Erechim. A indiada, tomando uma cachaça com limão espremido, num final de tarde de sábado, perguntaram: Tchê Cremildo, vendeu algum disco lá em Erechim? - Vendi uns cinqüentas. - Mas como? Fiz o seguinte: larguei meus piás pela esquerda e direita da avenida, pedindo se tinha na loja o disco do “Cremildo dos Pampas”. Os donos das lojas diziam que não tinham e não conheciam. Meus piás encomendavam uns cinco ou seis discos cada loja que passavam, diziam que queriam presentear os tios e os avós no Natal. Depois do passeio dos piás pela avenida que era grande, paguei uns pastéis e um gazozão para os piazitos e saí da rodoviária com duas caixas de discos debaixo dos braços. Chegando nas lojas que a piazada visitaram, o proprietário ou a dona ia me comprando uns oito ou dez de cada vez, pois já tinham pedido para tanto. Aí me falavam: - Já vieram vários pedindo do teu LP; nós não te conhecíamos! Depois de tomar uns vários aperitivos no boteco com a turma disse: - Vou pra casa; a venda hoje foi boa. Com uns cinqüenta discos por dia, vou encher a guaiaca de dinheiro. O resto dos discos que sobrou, pois não foi vendido mais nenhum, foram doados para os parentes, amigos e pro chinaredo do “Cremildo dos Pampas”. Muitos não rodaram na época, pois, nem toca disco tinham os coitados.

LER EM INGLÊS

Em 1979 fiz a segunda viagem ao exterior, numa excursão para Diretores de Esportes de AABBs do Brasil. Por quatro anos fui Diretor de Esportes da AABB de Chapecó. A viagem foi organizada pela Fenab (Federação Nacional das AABBs do Brasil). Todo mundo que queria participar do Curso de Treinamentos e Organizações de Clubes teria que pagar as despesas, inclusive uma taxa que na época era cobrado para ir ao exterior. Eu fui isento. Visitamos diversos países como Alemanha, França, Inglaterra, Itália, Suíça, Holanda, sempre participando de palestras e conhecendo Centros Esportivos. Entre muitos, estivemos em Firense (Itália), conhecendo o complexo onde treinava na época, a Seleção da Itália, estivemos nas quadras de Tênis de Roland Garros em Paris, Universidade de Colônia na Alemanha e outras. Num trajeto que fizemos entre Paris e Londres, dentro do avião, havia uma revista como tantas outras, escrita em Inglês. Em uma das reportagens, (depois fiquei sabendo) havia de um personagem humorístico de Londres, mas idêntico comigo, de barba, cabelo e tudo. Eu recolhi e vários recolheram a revista. Éramos em sessenta participantes da viagem de estudos, de diferentes cidades do Brasil. Para se ter uma idéia, alguém do grupo colou na porta do meu quarto, a página que aparecia aquele personagem humorista. Se alguém perguntasse: - Qual é o quarto do gaúcho? - É aquele que tem a página da revista. Voltando da viagem, chegando em Chapecó na 6ª feira, fui no sábado para Getúlio Vargas (RS), minha terra, visitar minha família e contar a história da viagem. Mostrei tudo que tinha trazido na bagagem como camisetas, chaveiros, artesanatos e junto, trouxe a revista de Londres. Meu irmão, por sacanagem, pegou a revista e deu para meu pai Pedro Vanni dizendo: - Ó pai, teu filho numa revista lá do exterior. Meu pai que era metido em tudo, queria sempre estar no meio dos assuntos que outros falavam, pouco estudo, lia pouco, colocou os óculos, pegou a revista escrita em inglês e começou a ler. Fiquei falando sobre a viagem para meus irmãos e minha mãe, e meu pai lendo a revista. Depois de uns quinze minutos, seu Pedro fechou a revista e eu perguntei: - Pai, leu a reportagem minha? - Lê eu li, mas não entendi nada.

GALO DO 3º PISO

Existiam dentro do Banco do Brasil menores estagiários e auxiliares de portaria que quebrando em miúdos, eram chamados de “contínuos”. De certa feita chegou no Banco um novo Sub-Gerente, lá dos pagos gaúchos. Havia na ocasião um contínuo chamado de Alverino, moreno forte, costumado a mandar nos menores estagiários, pois, só o que ele podia fazer. Pra cima dele vinha mijada de tudo o que era lado. Mas na primeira semana que o Sub-Gerente estava na Agência, quase sem conhecer ninguém, pelo menos pelo nome ou reconhecer a voz no telefone, discou para o 3º piso, pois precisava de uma informação. - Alô, é do 3º piso? - É, respondeu o Alverino, contínuo do Banco. - Quem é que fala, perguntou o novo Sub-Gerente. - Aqui é o Galo do 3º piso, fala fia duma p..... O Sub-Gerente largou do telefone e subiu escada acima até o 3º piso. Chegou no Alverino e perguntou: - Você é o galo do 3º piso. O Alverino respondeu: - Bem que eu desconfiei que a voz não era daquele fia duma p.... do Zeca, menor estagiário.

DISTÂNCIA DA CASA

Um chefe do Banco do Brasil chegou na AABB depois de uma caminhada, pediu uma água e no balcão falou para o jardineiro do Banco que tava tomando uma pinga. - Ando sempre três quilômetros antes de ir para casa e você? - Tchê não me leve a mal, mas a minha casa fica mais perto que a tua.

DEPARTAMENTO DO LIXO

O zelador Vivaldino do Banco do Brasil, sempre se preocupava em atender os funcionários. Nos finais de semana, arrumava cercas, cortava grama, consertava pia entupida, conseguindo com isso uns trocos a mais de seu salário. Lá no Banco então, qualquer coisa que um funcionário solicitava, era atendido na hora. Fazia a boa média para no final de semana dar uma “mordida” (pedir dinheiro emprestado) de verdade nos que atendia. Fazia vários dias que estava chovendo. De manhã quando entrei no Banco, pedi para o Vivaldino me arrumar uns papelões de caixas desmontadas para levar até o meu galpão, recém construído, onde a noite haveria uma churrascada. A finalidade era que a indiada não me sujasse meu galpão com os calçados cheios de barro. Como no Banco existem vários departamentos, o Vivaldino no seu setor, embaixo da escada, no meio de panos, baldes, vassouras, enxada, martelo e outros, foi logo providenciando conseguir os papelões. A certa altura eu atendendo o público no caixa, vi o Vivaldino entrar na fila que era enorme. Vendo que ele ia atrapalhar meu atendimento, para resolver logo o problema, gritei: - Fale Vivaldino, deu ou não deu? E ele encheu o peito lá de trás da fila e lascou: - Gaudério, os seus papelão pode pegar depois das 6h no meu Departamento de Lixo, embaixo da escada.

CARQUEMO RUQUE

O negrão Jovelino era cabo aposentado da Polícia Militar e morava em Chapecó. Nas festividades da Polícia, sempre convidavam o negrão para auxiliar em alguma coisa, mas pouca coisa fazia. Só tomava cachaça escondida dos superiores. Certa vez houve um encontro da Polícia Militar com autoridades do Estado e da Argentina em São Miguel Do Oeste (SC), que é fronteira daquele país, distante 150 km de Chapecó. O Jovelino foi junto para trabalhar na cozinha como auxiliar. Na chegada, a primeira coisa que se preocupou, foi mandar o ecônomo do clube arrumar uma cachaça. No salão, altas autoridades e na cozinha havia o preto Cremêncio, faltando um dente, meio chefe da turma. A certa altura o Cremêncio falou para o Jovelino. - Ta fartando arface, que que fizemo Jovelino. O Jovelino cheio de cachaça, não fazendo nada, só abanando para as autoridades lá de dentro da cozinha, por sacanagem falou: - Não tem alface, mas tem rucula. Vá lá e fala com o comandante. O Cremêncio com o avental branco todo sujo de banha, se atracou no salão onde estavam as autoridades almoçando. Chegou perto do comandante e lascou: - Comandante – não tem arface...carquemo ruque nos home. O comandante se virou para um subordinado e gritou: - Cadeia para o elemento, bem ligeiro.

CACHAÇA COM QUE

No Rodeio de Vacaria, numa roda de amigos, em frente ao acampamento, alguém comentava que estão inventando um remédio para curar a AIDS. Um bebum que estava ao lado com um copo da tal bebida Kapeta perguntou: -Cachaça com que?

O DISCO E A LEITOA

Quando Os Gauderinhos gravaram seu primeiro LP foi um comentário na cidade. Conjunto humilde, sem recursos, gravaram e começaram a divulgar na cidade e região. Mas as músicas prá época eram bailáveis. As letras geralmente eram feitas pelos próprios componentes do grupo. Os mais entendidos em música classificavam como um LP mais ou menos. O Constancio marido da Terezinha, gaiteira das invernadas artísticas do CTG, continua até hoje sendo considerado como um homem xarope. Reclama de tudo, ninguém ta certo, não faz nada, não sabe prega uma tabua, não e levanta para erguer uma criança caída. Vive a custa da mulher pois ela também costura para os CTGs. O Constancio não gostava dos Gauderinhos. Eles eram concorrentes da sua mulher - negócio de tocar no CTG, shows e outros. Num sábado a tarde o Constancio tava passando em frente a casa onde morava o dono do conjunto os Gauderinhos. Era uma subida e o Constancio caminhando lento pois é gordo, baixinho e meio velho de cabelos brancos. A todo o volume tava rodando o disco dos Gauderinhos numas caixas de som na área da casa. Num domingo de manhã no CTG, estávamos tomando umas canhas antes do almoço, e eu perguntei pro Constancio. - Chegou a escutar o disco dos Gauderinho Constancio? E o Constancio lascou; - Já; escutei uma música esses dias quando passei na frente da casa deles. Mas tu sabes de uma coisa Gaudério. Eu prefiro carregar uma leitoa no ombro, berrando no meu ouvido umas dez quadras morro acima, do que escutar o resto do disco daquela indiada.